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Vulnerabilidade: Fracasso ou poder?



Não se dê ao trabalho de dar um “Google” para encontrar o significado da palavra “vulnerabilidade”. Já fizemos isso por você:


"característica, particularidade ou estado que é vulnerável; sinônimos de vulnerável: derrotável, destruído, danificado, derrotado, prejudicado, frágil".

Fonte: https://www.dicio.com.br/

Assim, não é de se espantar que ninguém queira ser ou estar vulnerável, não é mesmo? Olhando para estes sinônimos nunca iríamos querer nos colocar em situações vulneráveis. Além disso, vivemos em uma sociedade que valoriza muito as pessoas “duronas” ou que “se viram sozinhas”. Logo, demonstrar vulnerabilidade, pode ser sinônimo de fraqueza? Nada isso.

Vamos começar desconstruindo a ideia de que vulnerabilidade é algo ruim, negativo, frágil. É o contrário!

Brené Brown é pesquisadora da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, ganhou visibilidade mundial com o seu TED sobre “O Poder da Vulnerabilidade”.

(https: //www. ted . com/talks/brene_ brown_ the_ power_ of_ vulnerability).

Os dados de sua pesquisa de mais de 10 anos sobre vulnerabilidade estão no livro: A Coragem de Ser Imperfeito. Nesta obra, escrevendo de forma clara e objetiva, a pesquisadora, desconstruiu a palavra vulnerabilidade e comprovou que as pessoas corajosas, são aquelas que assumem sua vulnerabilidade.


Quantos de nós, se esforçam para não ficarem vulneráveis, por associarem a vulnerabilidade à fraqueza? Pense um pouco, quando você vê alguém se colocando em posição vulnerável (dando uma palestra para um grande público, por exemplo), você acha esse alguém fraco ou corajoso?



Gostamos de ver a vulnerabilidade e a verdade nos outros, não é mesmo? Mas temos medo de deixar que a vejam em nós. Tememos que nossa verdade não seja suficiente. Vulnerabilidade é coragem em você e fraqu


eza em mim. Quero testemunhar sua vulnerabilidade, mas não quero ficar vulnerável. É assim com você também?

“A vulnerabilidade soa como verdade e sente-se como coragem. Verdade e coragem não são sempre confortáveis, mas elas nunca são fraqueza. ” Brené Brown

Usamos máscaras (que apesar de sufocar, dão segurança) e armaduras (que apesar de pesar, são fortes) para nos proteger do incômodo da vulnerabilidade.

Quando é o outro que usa as máscaras e armaduras, nos sentimos frustrados e rejeitados.


Acreditar que somos bons o bastante é o caminho para fora destas armaduras, e é o que nos autoriza a tirar as máscaras, e assim, “ser o bastante”, aceitando que temos valor e também temos limites, como todo mundo.


Passamos a vida tentando contornar a vulnerabilidade. Temos aversão à incertezas e exposição emocional, desenvolvemos arsenais de defesas contra essa emoção e partimos da premissa que devemos manter todos à uma distância segura e sempre termos uma saída estratégica. Entretanto, fomos concebidos para criar vínculos, para se conectar com as pessoas, e isso é o que dá sentido à nossa vida.


Se proteger de ficar vulnerável significa medo e isolamento, quando a vulnerabilidade é o âmago da vida e o centro das experiências humanas mais significativas. Quando passamos a vida esperando sermos perfeitos para entrar em cena, sacrificamos relacionamentos e oportunidades, desperdiçamos tempo e viramos as costas para nossos talentos - não existe ser humano perfeito, então, entre na arena! Isso é vulnerabilidade, isso é ousadia, aparecer e ser visto, com coragem de ser imperfeito.




Sim! Somos imperfeitos, vulneráveis, sentimos medo, cometemos erros, mas também somos corajosos e merecedores de amor e aceitação. Estamos aqui para criar vínculos, assim, amor e aceitação são necessidades de todos nós, e a ausência destes, sempre levam ao sofrimento.


Associamos vulnerabilidade com emoções sombrias, como medo, vergonha, sofrimento, tristeza, decepção (sentimentos que não queremos sentir). No entanto, vulnerabilidade também é berço de emoções e experiências que desejamos. É quando estamos vulneráveis que nascem o amor, a aceitação, a alegria, a coragem, a empatia, a criatividade. Isso traz uma clareza maior em nossos objetivos e uma vida espiritual mais significativa.


Infelizmente, não podemos optar por ficar fora da incerteza, do risco, da exposição emocional. A vida é vulnerável e esta é nossa experiência diária. Se estamos vivos, estamos sujeitos à vulnerabilidade. Na tentativa de fingir que podemos evitar a vulnerabilidade, temos atitudes, muitas vezes, incompatíveis com quem realmente somos/desejamos ser.


Não é possível evitar a vulnerabilidade, mas podemos escolher como reagir em momentos de incerteza, risco e exposição emocional.

Sentir medo é normal, desde que ele não paralise. Vulnerabilidade não é fraqueza, é poder. Precisa-se de muita coragem para reconhecer-se limitado e vulnerável, e ainda sim assumir a responsabilidade pelo próprio caminho.


A Cultura da Escassez

Estamos vivendo em uma sociedade dominada pela cultura da escassez, ou seja, a cultura de nunca ser bom o bastante. Em meio à esta cultura, contamos com uma epidemia de narcisismo, ou seja, pessoas egoístas, pretensiosas, que interessam-se somente por poder, sucesso, beleza e em se tornarem importantes.


Narcisistas costumam sentir-se superiores, ter ideias de grandeza, necessidade gritante de admiração e falta de empatia. No entanto, este comportamento nada mais é que medo de humilhação, e é necessário entender as causas destes comportamentos. Sob a lente da vulnerabilidade, o narcisista tem medo da humilhação, medo de ser alguém comum, receia nunca se sentir bom o bastante para ser notado, para ser amado e aceito. Para ele, uma vida comum, é uma vida sem sentido, por isso, precisa que ser tão bom e superior.


As ideias de grandeza e necessidade de admiração parecem aliviar a dor de sermos tão comuns e inadequados. No fim, isso causa mais dor e levam a mais isolamento. Logo pela manhã, já acordamos pensando: “não dormi o bastante”. À noite, seguimos pensando “não fiz tudo que precisava hoje”. O pensamento de não suficiência é automático (não nos damos conta, não examinamos, não refletimos). Antes e de sair da cama já nos sentimos inadequados, já ficamos para trás, já perdemos. Esta tendência mental voltada para a escassez, está no centro do ciúme, cobiça, preconceitos e das nossas interações com a vida.




A escassez é uma hiperconsciência da falta, da inadequação, e é desoladora, pois comparamos tudo que temos com a perfeição, com o inatingível (geralmente propagado pela mídia). Existe um terreno fértil para a tendência mental da escassez, que são os ambientes onde predominam a vergonha, a comparação e a desmotivação.


No caso da vergonha, o medo do ridículo e a depreciação são usados para controlar as pessoas, apontar culpados e humilhar. No caso da comparação, quando se torna o centro de tudo e confina pessoas em padrões estreitos, sufocando sua criatividade. E no caso da desmotivação, o medo de correr riscos e tentar coisas novas é maior do que o desejo de ser visto e ouvido.


Pronto, temos a receita perfeita para o pensamento de escassez.

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