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  • Francielle De Cezaro

Ouve dos outros, escuta de ti: O lugar da escuta ativa

Atualizado: Set 23



Quando "escutar" diz muito mais sobre quem somos, do que o que de fato abrimos ao outro.

A escuta pode-se dizer aqui, é uma condição proporcionada, porque estamos falando de um lugar mútuo e vivo, de movimento, a quem fala e a quem escuta, condição esta tão percorrida nos dias de hoje, ou ao menos dita percorrida. Tenho a impressão que de fato, algumas vezes, nem sabemos o que queremos encontrar, talvez queremos saber simplesmente qual o nosso lugar, mas não compreendemos o que realmente isso implica nas nossas relações.

Fazendo uma leitura do livro "O Palhaço e o Psicanalista", de Christian Dunker e Cláudio Thebas, quero compartilhar algumas reflexões. Nós crescemos escutando: "temos duas orelhas e uma boca", ou seja, o escutar pode ser visto como um ato simplista, quem dera se aquietar, quase sempre é somente se calar. E não raro, por aí vem: "Quem sabe fala e quem não sabe escuta". Embora consideramos a importância do ouvir, ele nos parece um lugar passivo, de espera, menos importante que o da fala, ou é assim que muitos acreditam. O lugar da fala em nossa sociedade é enaltecido, e é neste pedestal que vamos a deixando. Passamos a acreditar que "escutar" retrata a atitude de alguém ingênuo, "que não sabe das coisas" e por isso, escuta.

Queremos cada vez mais, aprender a falar, porque afinal "falar bem" é "comunicar-se de forma eficaz", mais do que exercitar o ouvir. Quantas e quantas vezes ouvimos não para compreender, mas para elaborar a melhor resposta? Reagir e reagir. Ouvimos para que o outro não diga que não teve a sua vez?

Ouvimos porque é politicamente correto? Ouvimos porque alguém nos disse que precisamos desenvolver esta competência? E assim seguimos fazendo o que de alguma forma aprendemos que é preciso e não o que compreendemos e sentimos ser necessário.

Talvez desenvolver essa habilidade, soft skill, seja olhar para a nossa cultura e sobretudo o que construímos ser certo e errado, nesse mundo que insiste em ser dual, binário, dividindo o que é junto e misturado.

Então, para começar, vamos entender que escuta não é a mesma coisa que desinvestimento, desinteresse, não é esconder-se. Vai na contramão disso, é assumir, é querer, é interesse genuíno em mim, no outro, no desconhecido, e achar todos esses. Esta condição exige muito mais do que técnica. Exige abertura, qualidade e sustentação de presença, sendo quase um ato de generosidade. Em tese, deixo de me colocar para abrir este espaço, deixo de falar sobre o que me incomoda para saber do que desfaz o outro.


Escutar é dar o seu silêncio e atenção, mas definitivamente, não é anular-se, pois estou

abrindo o meu espaço para acolher o outro. Mas como eu escuto o outro se não consigo escutar a mim mesmo? A atenção às nossas próprias palavras e reações não podem ser desprezadas ou anuladas. Escutar-se é dar vez ao desconhecido e refazer a versão que temos de nós mesmos. Quantas descobertas podem vir por aí, além de acolhimento e autocuidado. É na reação que o outro me causa, na angustia que me desperta, no ranço que insiste em permanecer, enquanto "tento escutar". Nas próprias palavras que saem, nas interrupções constantes, nas mãos trêmulas, no "tá..., vai..., fala então".

Escutou a si?


Agora, para escutar o outro é preciso abrir mão do controle, do conhecido. Então, talvez escutar seja um espaço de vulnerabilidade? E há quem acredite que seja de descompromisso? Será que podemos dizer que a escuta é uma troca? Quem escuta sai do seu ponto de vista e compreende pelo do outro e o outro faz o mesmo. Seria empatia? É suspender a sua perspectiva e assumir a perspectiva do outro. Talvez um ato de coragem? Porque talvez tenhamos que ouvir o que não queremos, mas e se precisamos? Ou coragem seria ouvir só o que queremos?


Esse campo só é fértil se a sua base for construído através de relações de sinceridade, confiança e o limite se der pelo próprio exercício da escuta. E se conseguirmos, mesmo que por "um minuto" nos despirmos de nossa pretensão de agradar e de ser amado pelo outro, talvez tenhamos nos entregue a esta conexão da escuta, de fato. Quem sabe chegou a hora de pensar na intenção, de escutar e ser escutado. A serviço do que este momento de propõe? Saber a intenção real dessa troca é o que irá nos ajudar a entender o rumo e percalços desse caminho. Se o outro está compartilhando algo é porque você é um local seguro para ele, a princípio é isso. "Eu só queria jogar conversa fora", talvez seja um pretexto para encontrar um sentido para tudo que sai de dentro.

É engraçado ver algumas "definições de boa comunicação": "É fluída", "A gente se entende". Partimos do pressuposto que comunicar bem é a eficácia da transmissão da mensagem. Enquanto deixamos de aprender, revirar e tocar nos desencontros da escuta e da fala, para assim revelar mal-entendidos e todo o calhamaço de mensagens que podem estar escondidas por aí. Quem sabe seja essa a verdadeira escuta, aquela que tanto queremos desenvolver e praticar.

Escutar é abrir mão do que sabemos, para outras formas de saber, é lidar com angustias que são nossas e que de repente se apresentam em nossa frente, personificada em alguém, "tão parecido comigo". Ui, que susto! Ou alguém tão distante, um abismo. A lógica do encontro está em nossa possibilidade de acolher o imprevisto diante do que havíamos programado, projetado, diante das nossas expectativas. Que os espaços sejam verdadeiramente ocupados, que as escutas não sejam passivas e as falas vazias, que nesse caminho sempre possamos encontrar o outro e a nós mesmos.



Escutar é dar espaço. Hoje, você tem lugar para alguém aí?


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